C omo em todas as eras, as evoluções tecnológicas que foram surgindo continham promessas de poupança, de recompensa e até de libertação. Os seres humanos seriam (serão?) os principais beneficiários da sua inventividade e do seu engenho. Tempo, esforço, e comodidade foram sendo conquistados à custa de máquinas e de tecnologias cada vez mais capazes de nos poupar às provações e aos custos que as gerações anteriores não tinham tido escolha que não suportar. Imaginou-se, ou previu-se, que iríamos cada vez trabalhar menos e ganhar tempo para o prazer de nos tornarmos melhores, mais sábios e mais cultos. O ócio deixaria de pertencer aos preguiçosos e aos afortunados e passaria a estar à mão de todos ou, pelo menos, de muitos mais. Nada disto aconteceu.

Como se passou com todas as grandes evoluções do passado, as tecnologias que hoje estão a ser aplicadas estarão a ter efeitos na forma como vivemos no mundo, como o vivemos, connosco e com os outros. Alguns desses efeitos ainda serão desconhecidos, por serem recentes; por não ter passado ainda tempo suficiente para os podermos compreender. Por estarmos demasiado próximos e envolvidos não alcançámos a distância suficiente para poder reflectir de forma crítica. Outros permanecem invisíveis porque ainda somos cegos, voluntária, porque nos dá jeito, ou involuntariamente, porque somos inconscientes. Talvez coisas como esta sejam ditas por alguém de todas as gerações em relação a uma novidade ou em relação aos mais novos que vivem entre nós, para quem o novo não é novo. É aquele tipo de discurso que os jovens apelidam de “conversa de velho”, de quem está preso ao passado; que os de meia idade, ao o proferirem, usam para se aperceberem que estão a aproximar-se da velhice; e os realmente velhos utilizam para demonstrar toda a certeza, toda a convicção e toda a sabedoria que os seus anos de vida lhes proporcionam.

Novidades à parte, a língua que hoje mais se fala é binária: é uma língua de quantidades. Não é sempre a mais adequada, apesar da sua sedutora capacidade de tornar o mundo objectivo e mensurável. No mundo dos “uns e zeros” privilegia-se o controlo. E o controlo torna mais próxima e, talvez, mais apetecível a via da manipulação. Por exemplo, o acto de prever deixou de ser algo feito por mágicos mais ou menos duvidosos para passar a ser entregue a cientistas e a economistas que mudam vidas e planetas com as suas teses. Prever, no fundo, é querer controlar o tempo futuro. Esta pretensão apenas é possível quando se parte de uma perspectiva em que o tempo é linear, constante, cuja passagem é independente de nós próprios e de tudo o resto. Esse ângulo sobre tempo trouxe outro tipo de conforto: o descanso que surge quando se tem a convicção absoluta de que nada depende da nossa acção. A feliz irresponsabilidade presente no fado, no destino, naquilo que já está escrito algures por uma ordem do universo. É esse tipo de conforto que, paradoxalmente, para alguns, será fonte de angústia. O tempo não funciona assim. Não é independente de quem o experimenta.

Aqueles que falam preferencialmente através de números ou que deixam que estes falem por eles tornam-se adictos da quantidade e da velocidade. E hoje tudo é tanto e tão rápido. Considere-se uma situação em que se quer saber algo que não se sabe; ou que a memória, caprichosa e limitada, apagou ou substituiu o que já se soube por algo mais interessante ou relevante. Quanto tempo durará hoje a inquietação de não se saber algo? Pouco, muito pouco. A informação está na ponta dos dedos e é muito rápida a chegar aos olhos. Os dedos e os olhos, mesmo trabalhando em conjunto, não são inteligentes o suficiente para distinguir informação de conhecimento e muito menos de sabedoria. Talvez seja, também, por isto que tanta informação falsa passe por verdadeira, que tanta mentira seja tomada como verdade. A velocidade e a quantidade da informação são inimigas da sua incorporação e da sua transformação. Por oposição, as mesmas dimensões são aliadas da confusão.

Hoje, além da velocidade e da pretensão do controlo do tempo futuro, há também a ilusão de se poder suspender o tempo presente. A capacidade para pausar e retomar a realidade (vídeo, audio, etc.) parece estar a condicionar e a alimentar a impaciência e a falta de resiliência. Hoje assisto a discussões dos meus filhos quando algum deles precisa de ir à “casinha”, enquanto vêem desenhos animados, a esgrimir argumentos sobre a necessidade imperiosa de alguém carregar no “pause”. É um cenário muito diferente de quando não se podia escolher. Não era a resignação que se desenvolvia. Crescia a paciência e noção de que o mundo não está ao nosso serviço nem dispor.

O pior é que cada vez mais estamos em pausa, suspensos, agarrados a ecrãs, à espera que a realidade reconquiste o seu protagonismo na nossa atenção e na nossa presença. Basta ver como se anda na rua agora. Parecemos querer treinar o tacto com os pés calçados, tacteando os degraus e os passeios para não desviar os olhares dos pequenos vidros a que fazemos festas, na ânsia de não se perder nada do que se está a passar longe. Estamos a deixar de saber ver (e sentir) ao perto. Esta miopia invertida não é apenas dos sentidos, é também dos sentimentos.

Sorte a nossa que um dos avanços recentes no nosso saber foi começarmos a entender que o tempo depende de quem o vive, tornando-nos responsáveis, quer queiramos assumir essa responsabilidade ou não.


Escrito para a Link to Leaders a 5 de Outubro de 2019, publicado a 16 de Outubro de 2019.

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