Parte 1 – A história de uma experiência

Uma breve introdução

Andamos ocupados com ideias. Temas como: o tempo; a (in)utilidade do que fazemos; a (in)utilidade do que fazemos ou não fazemos com o tempo; o estar verdadeiramente presente no tempo presente; o tempo como um presente, que pode ser envenenado; a falácia da eficácia e da produtividade; permitir-se nada fazer; o lugar do lazer no trabalho e do trabalho no lazer; entre outros, são temas sobre os quais temos reflectido, escrito e que cada vez mais vão fazendo parte do nosso vocabulário no dia-a-dia da Way Beyond. Estas ideias têm tomado espaço privilegiado nas conversas da nossa equipa.

Temos, até, reflectido abertamente sobre estes e outros assuntos relacionados nas nossas Tea Talks, o que nos “obriga” felizmente, a assumir publicamente as nossas posições, alguns dirão, pouco ortodoxas, em relação aos mesmos. São assuntos que gostamos de discutir e que, como tal, gostamos de partilhar. Porque acreditamos que o que é bom deve ser partilhado e porque ao partilharmos temos oportunidade de aprender e de nos conhecermos melhor.

Por tudo isto, decidimos contar a história de uma experiência que fizemos, em equipa.

O que pode ser “trabalhar” sem trabalhar?

A ideia original, algo louca, surgiu numa conversa de equipa em que se abordaram a estratégia e o propósito da Way Beyond. Para desafiar os nossos próprios paradigmas em relação ao “trabalho”, poderíamos chegar a um patamar onde reservaríamos um mês por ano em que não trabalharíamos “para fora”. O trabalho para clientes ficaria suspenso durante esse período. Não responderíamos a e-mails nem a telefonemas. Trabalhar de uma forma diferente e com intenção e propósitos diferentes. Esse seria o desígnio. Bem, para começar, talvez um mês fosse mesmo loucura, reservámos três dias para “pensarmos sobre nós”. 

Mas o que significava “pensarmos sobre nós”?

O briefing que recebemos foi curto e, para dizer a verdade, pouco objectivo (de e com propósito!). Ninguém sabia muito bem o que era isso de pensarmos sobre nós, nem mesmo o João e a Ângela, os “loucos” por detrás da ideia. 

Sabíamos apenas que durante esses três dias estaríamos na Way Beyond e não trabalharíamos para os clientes, mas sim, para nós. Sabíamos que era suposto pensarmos sobre a nossa vida dentro das paredes da WB: o que fazemos e o que queremos fazer, o modo como fazemos e o modo como queremos fazer, o que gostamos e o que gostaríamos de mudar; onde estamos e para onde queremos caminhar, quem somos e quem queremos ser…

Mas como? Em conversas preliminares, pensou-se em “dar estrutura” e construir uma agenda. O perigo estava iminente: mesmo antes de a experiência acontecer, as dificuldades em abandonar o “registo habitual” tornavam-se evidentes.  Resistimos: “Não! Vamos em branco.”

Partida! Largada! Fugida!

Eram cerca das 10h da manhã quando nos sentámos à volta da mesa de conversas (ou de reuniões, mas nós preferimos conversar em vez de reunir). A conversa começou com… silêncio. De alguns de nós vinham evidências de inquietação, de dúvida, de vontade de saber o que iríamos fazer.  Outros de nós, pelo contrário, tinham um semblante mais descontraído, curioso. Todos, estávamos expectantes!

Mas ninguém tinha uma proposta concreta, ninguém trazia um plano na manga. Ninguém avançava com uma solução. Que medo! Será que iríamos apenas perder tempo? Com tanto para fazer e com a vida com os clientes suspensa por três dias? Ai! 

[Mais silêncio]

Progressivamente foram surgindo as primeiras reflexões: será que estamos com medo de parar? Como é que se pára? Será que poderíamos aproveitar este “Momento WB” para conversarmos e nos conhecermos melhor? Afinal, damo-nos todos bem, mas será que nos conhecemos assim tão bem? Será que somos capazes de fazer o que dizemos que fazemos em relação ao tempo – darmos tempo, termos tempo? Tempo para fazermos o que não costumamos fazer, para aspectos que dizemos serem para nós fundamentais como criar relação, conversar ou, apenas, estar? Precisamente no sentido de construirmos a nossa cultura e de pormos em prática, mesmo de verdade, aquilo em que acreditamos e em que desejamos fazer a diferença, aproveitando o facto de estarmos juntos aqueles três dias, tirando partido de uma consciência e de uma inteligência colectivas. 

Esta discussão ocupou uma boa parte da manhã e levou-nos a querer perceber o que é que apetecia a cada um de nós fazer. Devagar porque temos pressa! Fizemos a lista “apetece-me/não me apetece”: 

1
“Apetece-me conhecer, ouvir, integrar-me, ter tempo para saber quem somos, colaborar”
1
“Tem de acontecer alguma coisa?”
2
“Isto irá servir para alguma coisa só que ainda não sei o que é”
3
“Gostava que contássemos a história do que vai acontecer”
1
“Quero-me divertir nestes três dias”
2
“Não há nada que eu diga que gostasse mesmo de fazer”
1
“Ouvir histórias, contar histórias, apetece-me rir, conversar”
1
“Qualquer coisa que aconteça será boa, um trampolim para nos elevar, por isso, estou tranquila”
2
“Gosto de pensar que este momento é espectacular, extraordinário e que nos permitirá ganhar, fazer alguma coisa para nos tornarmos também extraordinários”
1
“Eu sou muito prática (…). Eu quero conversar sobre os case studies, quero ideias, quero aprovação”

Até aqui, tudo bem! Uns mais concretos do que outros na expressão das suas vontades, outros manifestamente incomodados, mas todos com vontade.

Parte 2 – Planos para que vos queremos

“A utilidade servirá para alguma coisa?” Com esta pergunta como mote voltámos ao tema da utilidade, relacionado com o da produtividade, talvez não como uma obsessão mas antes como uma preocupação inerente aos modos de trabalho mais enraizados e que, por muito resistentes que sejamos, por vezes, ainda nos vencem. 

Se tudo era possível, também o seria escolher voltar ao dia-a-dia do escritório, romper com a regra de “não contactarás com clientes nestes três dias”, andar “cá e lá”, “resolver este assunto que não pode mesmo ser adiado”. E tanto havia para fazer… 

O mais importante era vivermos esta experiência, criando espaço para todo o tipo de vivências e emoções. Por isso é que a Ana optou por aproveitar a manhã deste primeiro dia para finalizar um trabalho que tinha em mãos. 

Ufa! Temos um plano

Ainda que não conscientemente, começávamos a esboçar um plano. Um plano simples, aberto. Um plano que parecia trazer-nos uma espécie de segurança por fechar um pouco o sem-fim de possibilidades que poderíamos explorar ao longo daqueles três dias. Se, por um lado, tínhamos assumido o desafio de começarmos “em branco”, não escapámos ao ritual de definir alguns momentos da nossa agenda. Mas não considerámos ter perdido para o hábito do planeamento. Na verdade, poderíamos fazer o que quiséssemos e o que queríamos (ou alguns queriam) começava a ganhar forma.

Concordámos que, neste primeiro dia, iríamos: começar a escrever os case studies sobre projectos realizados com alguns clientes; esboçar a estrutura da história que queríamos contar sobre estes dias; e participar num workshop, “O Parlamento das Coisas”, preparado pela Ângela e pela Lígia. 

Mas basta ter um plano?

No dia seguinte, tomámos café juntos na nossa varanda, apanhámos sol e pelas 10h30 começámos a nossa conversa com um balanço do dia anterior em torno de diferentes binómios que, naturalmente, foram surgindo: 

    • Trabalho vs Lazer: O que estava a ser este “Momento WB”?
    • Serenidade vs Inquietação: Como estava a ser vivida esta experiência? 
    • Utilidade vs Inutilidade: Estaria a servir para alguma coisa? Teria de servir para alguma coisa? Não servindo para “nada”, significava estar a ser inútil? E o que significava estar a ser inútil? 
Ter um plano vs Não ter um plano 

Este binómio, na verdade, poderia ser um “trinómio”: ter um plano detalhado para o “Momento WB”, ter um plano geral, não ter plano nenhum. As opiniões iam, maioritariamente, no sentido de deixar o plano começar a ganhar forma. Afinal, o que definimos para o dia anterior havia surgido da inquietação de não ter plano nenhum. Então, talvez fosse um bom plano começar por não ter plano e deixar acontecer.

A esta distância, diríamos que qualquer destes binómios não vem dissociado de nenhum dos outros. Sentimo-nos inquietos porque “deveríamos” estar a trabalhar, a fazer algo de útil e ter um plano seria essencial para isso. Quarta, quinta e sexta “sem fazer nada”, que loucura! Poderíamos realmente parar aqueles três dias? O que é que isso significava para o negócio? Estaríamos preparados? Colocámo-nos estas questões inúmeras vezes, conversámos sobre elas, algumas respostas sossegaram-nos, outras nem por isso. 

Por outro lado, sentimo-nos serenos por estarmos a assumir que não ter um plano não pressupõe que seja inútil o que estamos a fazer e que podemos ousar escolher viver livremente o tempo que decidimos oferecer-nos, até mesmo, para nos dedicarmos ao ócio. 

Diríamos, no entanto, que momentos houve em que a inquietação se sobrepôs à serenidade, tínhamos (e temos) de treinar mais o “músculo”. Porque é o que queremos: deixar de olhar e sentir com estranheza que trabalho e lazer podem coexistir, aceitar que é saudável que coexistam para bem das pessoas que somos e para mal da máquina que a máquina do trabalho teima em fazer viver. 

Depois do balanço continuámos a trabalhar nos case studies. Era o que tínhamos vontade de fazer. 

Chegámos ao final do dia com os casos praticamente concluídos, com a sensação de missão cumprida. Com sucesso! Não por acharmos que fomos produtivos mas porque nos sentimos bem a escrever os casos, porque gostámos do que fizemos e porque no dia seguinte teríamos oportunidade de os mostrar e melhorar com a colaboração de todos. 

Voltámos à varanda, conversámos mais um pouco e brindámos! Sentimo-nos felizes juntos! 

Parte 3 – De fins e de inícios

Último dia e agora?

No último dia do “Momento WB” havia emoções para todos os gostos.

Por um lado, a insatisfação estava no ar, ainda que mais declaradamente nuns do que noutros. Para alguns de nós, o dia anterior não tinha sido, afinal, espectacular, principalmente por não termos sido assim tão criativos e inovadores na vivência daquele tempo generoso e privilegiado que havíamos concedido a nós próprios.

Por outro lado, estávamos contentes: tínhamos criado tempo para conversarmos, para nos conhecermos melhor, tínhamos tido a abertura e a coragem de dizermos o que pensávamos e a audácia de, da ausência de um plano, fazer aparecer “alguma coisa”.

Partilhámos os case studies que construíramos, comentámos, melhorámos. Alguns estavam praticamente prontos para serem partilhados com os nossos clientes e parceiros. Boa!

Mas alguma coisa se passava: nem todos estávamos assim tão satisfeitos com a experiência. Tinha sido bom mas gostaríamos que a próxima fosse melhor!

Será que fizemos assim tão diferente? (ou Maio, Maduro Maio?)

Chegámos ao final do “Momento WB” vivos! E bem?

Apesar de nem tudo ter corrido como sonhávamos (mas o que é sonhávamos para este “Momento WB”? Será que sabíamos? Será que partilhávamos todos o mesmo sonho?),  o balanço foi positivo: continuamos a questionar-nos. Quão difícil é lidar com a ideia de parar, de interromper a rotina e os hábitos? Como lidar, individual e colectivamente, com uma situação destas, sobretudo quando é auto-imposta? O que significa e o que implica preparação para uma vivência como esta?

Como utilizar o tempo? Como “aproveitar” o tempo? Como nos livramos da associação entre o tempo e a utilidade?

Como lidar com a exigência e com a necessidade de ter claro para que é que “isto” vai servir? De ter um plano, uma agenda.

Se não mudássemos, se fizéssemos o “normal” e o habitual, qual o impacto no negócio? O que de extraordinário aconteceria? Provavelmente nada. Um dos riscos desta incomodidade, desta incerteza e desta ambiguidade é algo de extraordinário poder acontecer. E essa “coisa” extraordinária teria de acontecer imediatamente? Ou será que acontecerá daqui a um tempo, começando lá no final daqueles três dias para ir ganhando forma num tempo longo, duradouro que ajude a compreender, a contextualizar, a integrar e a consolidar no ADN da Way Beyond?

Para onde e por onde caminharemos a partir daqui? 

Partilha e transparência são princípios que queremos pôr em prática em todas as acções da Way Beyond. Fazem parte da nossa cultura, de que nos orgulhamos e na qual queremos trabalhar com cada vez maior consciência.

A ideia de contarmos a história do “Momento WB” surge daqui mesmo: da vontade de expandirmos a compreensão e aplicação destes dois princípios, primeiro em nós, para depois, com maior segurança, os podermos experimentar nas nossas relações com clientes, parceiros e todas as pessoas que se interessem por estes assuntos. E é precisamente por isso que queremos partilhá-la com todos.

Ainda não sabemos como queremos que sejam os próximos momentos WB, mas estamos convictos de que queremos mais. Ainda temos muito caminho pela frente e isso deixa-nos felizes porque nos desafia e nos faz acreditar que continuaremos a crescer enquanto equipa, uns dias à sombra, outros dias ao sol.

E, para sermos coerentes, estamos dispostos a aprender com tudo e com todos. Alguma sugestão?

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