O contexto

  A lerto-o/a, caro/a leitor/a, que, com a exploração que vou propor sobre os muitos efeitos negativos que tenho encontrado em quem segue, com exagero e extremismo, a doutrina do “politicamente correcto”, correrei o sério risco de enveredar pelo caminho contrário. Apesar do alerta, repare, eu próprio comecei este artigo de uma forma que poderá ser considerada politicamente correcta. Nos dias que vivemos parece haver um desnorte do ponto de vista político, em mais do que um sentido. Pode-se colocar a hipótese que, por isso, se tornou mais difícil perceber o que é correcto. Muitas vezes, com o peso de um cuidado extremo, a roçar o medo, mesmo a expressão mais inocente e inócua de uma ideia, opinião ou sentimento pode ser vista como “sincericídio”. À cautela, para não magoar ninguém, eu incluído, decidi começar usando a forma que criticarei. Há poucos anos tomei contacto com uma definição de “politicamente correcto” que se enraizou na minha memória, a ponto de a tornar minha. Na verdade, isto significa que me esqueci da fonte e que me tenho aproveitado para elaborar sobre o assunto. A definição é qualquer coisa como: “politicamente correto é uma teoria que sustenta a ideia de que é perfeitamente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo”. Pois bem, não creio ser possível. Se é merda, é merda. Vai sujar, cheirar mal e contaminar. Por outro lado, se a virmos para lá das suas características mais proeminentes, podemos utilizá-la como fertilizante, por exemplo. Não como um fim trágico de algo mas como um catalisador de um início qualquer. Aparentemente, não nascemos equipados com a associação da merda a porcaria. Não nos é natural, como a merda. Só com a experiência, com a cultura e com a educação vamos aprendendo a fazer essa ligação. Aposto que conhecerá histórias, em muitos casos o/a leitor/a será o/a protagonista,  em que uma criança degusta ou manipula a merda, movidos por tudo menos pela repulsa. À luz dessas histórias, pode-se dizer que a curiosidade mata o politicamente correcto; mata a ideia de “merda”. Por oposição, serão a certeza, a convicção rígida, a inflexibilidade e a necessidade de controlo que nos levarão  a optar por sermos mais políticos. Não me espantarei se alguns psicanalistas disserem que andamos mais “anais”. Não podemos alterar a essência da merda. Podemos, sim, mudar a forma como a tratamos e o fim que lhe damos. Poder-se-ia dizer que quem opta pela via do politicamente correcto trata a merda com tanto carinho que prefere não mexer nela, para não a estragar, porventura. Claro que teremos de considerar a óbvia hipótese misófoba: os que fogem da sujidade a sete pés. Esse parece ser um dos principais motivadores para o uso do politicamente correcto: a cautela. Não magoar, evitar a exposição, garantir que não há interpretações erradas nem ofensas subsequentes são razões que nos levam a dizer as coisas com um cuidado extremo. Aliás, a cautela está na génese da expressão “politicamente correcto”. Terá sido criada para designar linguagem ou acções que não firam ou ofendam grupos protegidos ou tipicamente desfavorecidos. Contudo, há quem defenda, como eu, que este cuidado está a ser levado para longe da correcção, em direcção à limitação da liberdade, em mais do que um sentido. Sendo o pior deles, a ausência de liberdade de pensamento. De tal forma que pode ganhar contornos de prepotência. Assumirmos que sabemos o que vai ser melhor para o outro é, no mínimo, paternalista (também pode ser maternalista, para ser politicamente correcto). Por outro lado, andamos todos tão sensíveis que esse cuidado parece ter razão de existir. Basta observar as velocidade, ferocidade e voracidade dos ataques a qualquer comentário que não se alinhe com as ideias preexistentes e convencionais, “pretas-ou-brancas”. Se não sabe do que estou a escrever, espreite as redes sociais ou as caixas de comentários dos jornais online. Correndo o risco de me contradizer, exemplos como estes podem levar-nos a pensar que a noção de que o politicamente correcto está a ir longe de mais é errada. E facilmente encontramos argumentos que sustentam esta outra perspectiva. Olhemos para os casos recentes de presidentes de nações, alguns deles eleitos recentemente, e de outros líderes políticos que têm ganho peso e tracção, e será fácil de verificar que essas figuras representam, em muitos aspectos, o oposto do politicamente correcto. A ideia de contradição é cara à noção de politicamente correcto. Se, por um lado, foi criada para afastar os preconceitos, hoje em dia é utilizada para os manter e solidificar. Que fique claro, caro/a leitor/a, o ponto desta reflexão não é expor a minha posição política, nem analisar de que forma a correcção política está a ser usada pela esquerda e pela direita, ou se é a favor ou contra do liberalismo. É certo que o tema está na ordem do dia por tanto se falar de (des)igualdade entre géneros, de diversidade e do combate aos preconceitos. O meu interesse é mais comezinho. Interesso-me sobretudo pelos efeitos do politicamente correcto nas relações interpessoais, pelo seu impacto no seio de equipas de trabalho e nas empresas, pela forma como influencia as relações de amizade, familiares e conjugais. Será exactamente esse ponto a explorar na segunda parte deste artigo.
Publicado originalmente no Link to Leaders em 14 de Dezembro de 2018.

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