Émuito trabalhador” ou “tem grande capacidade de trabalho”; “é a primeira a entrar e a última a sair”. Quais as primeiras ideias que lhe surgem ao ler estas frases? O que sente?

Imagino que poderão surgir respostas em sentido diverso. Enquanto uns se identificarão prontamente em tom auto-elogioso, outros poderão rever-se por razões e com sentimentos opostos. Poderá haver quem, como eu, as receba com algo próximo da repulsa. Tenho observado que frases como estas são muitas vezes ditas e escutadas como elogios, mesmo que associados a alguma ambivalência. A capacidade de dedicação de tempo, em quantidade, parece ser ainda um dos factores mais valorizados por quem avalia o trabalho de alguém.

Uma outra perspectiva mais assustadora, a meu ver, é que do ponto de vista social “estar muito ocupado”, “não ter tempo para nada”, “a vida andar uma loucura”, desejar que os dias tivessem 48 ou mais horas e outras expressões do género não só são aceites como são usadas com um regozijo sofrido. No fundo, quando usamos estas declarações no nosso discurso estar-nos-emos a gabar1, embora possa parecer que nos estejamos a queixar. Tal fenómeno parece indicar que a quantidade de tempo é também um indicador de valor para a auto-avaliação do trabalho.

Em ambos os casos há uma falácia implícita e desastrosa: quantidade de tempo dedicado é equivalente de quantidade e de qualidade de trabalho; é preditor de competência. Não é! Esta mentira descarada é alimentada pelas grandes escolas de negócios2, com os seus reconhecidos “teóricos” da gestão e da liderança, que continuam a reforçar um paradigma onde a urgência, a velocidade e a escassez imperam: há que fazer mais, mais rápido e com menos. Mais, as empresas até já se preocupam e se ocupam com a “felicidade” das suas pessoas, para que possam passar mais tempo a trabalhar e a pensar sobre trabalho, mas mais felizes.

Mas as “grandes ideias mortas” da gestão não são as únicas responsáveis pela forma como associamos o tempo ao trabalho desta forma particular. As obsessões com a produtividade e com a eficácia intrometem-se commumente, contribuindo para se viver e se sentir o tempo como linear e finito3: o tempo como algo que está a acabar, algo que estamos a perder. Se assim é, se assim se vive, todo o tempo passa a ser medido em termos do que se julga estar a produzir; a todo o tempo que se passa no escritório, por exemplo, fica associada a expectativa, que partirá tanto do próprio como de terceiros, de que tem de ser tempo útil, aproveitável, empregue na criação e na produção. Esta exigência de produzirmos algo que seja útil com o nosso tempo retira-nos a possibilidade de o ocuparmos com coisas inúteis mas importantes, se não mesmo fundamentais4. Esta forma de pensar está de tal forma disseminada que até passámos a planear o nosso tempo de ócio e de lazer, como as férias, utilizando os paradigmas e as ferramentas que aprendemos e utilizamos enquanto trabalhamos. “Se tenho pouco tempo de férias, muito menos do que o que passo a trabalhar, há que o planear bem para que o possa aproveitar ao máximo”. Será só a mim que esta frase soa estranha e paradoxal?

Tornámo-nos tiranos em relação ao tempo, para nós e para os outros. Por outro lado, como acontece em relação a todos os dessa estirpe, queixamo-nos da nossa impotência perante o seu poder. Para além da utilidade está a questão da disponibilidade: quando não a exigimos, esperamos que exista de forma permanente e de preferência imediata.

Aliás, as diferentes tecnologias e formas de comunicação que hoje praticamente todos utilizamos tornam a nossa presença ubíqua e a nossa atenção dispersa. A combinação destas duas características está a ter um resultado perigoso na nossa espécie: estamos a deixar de saber estar presentes e, como consequência, estamos a deixar de saber pensar num determinado sentido; deixámos de saber contemplar e de saber elaborar sobre o que contemplamos. Muitas das nossas experiências estão a ser mediadas por um qualquer paralelepípedo feito de metal, plástico e vidro com câmaras e ecrãs de alta definição. Basta olhar à nossa volta num qualquer restaurante ou ir a um concerto para perceber que os aparelhos que têm o potencial de nos libertar das amarras do mundo físico acabam por nos poder distanciar de tal forma que ficamos presos no mundo digital, numa qualquer “nuvem”, longe da experiência que estará a acontecer e na expectativa de podermos contar as vezes que dizem que gostam de nós. Esta forma de experimentar o mundo e a realidade está a fazer-nos associar forçosamente uma dimensão quantitativa (a contagem) à qualidade de qualquer experiência; o mesmo que acontece com o tempo5.

Agora que estamos em período de férias, conseguiu, está a conseguir ou conseguirá, como se diz na gíria do mundo do trabalho, “desligar” completamente6? Mas antes disso, como se terão instalado em nós estas vontade e necessidade de nos desligarmos? A que é que nos ligamos, quando desligamos do trabalho? Parece-nos que temos fichas e cabos limitados e, em certa medida, é verdade. Precisamos de dormir, de desligar a consciência, para recuperar energias. Tal como o tempo, também a nossa energia tem um limite. Acredito que uma boa relação com o tempo implicará sabermos fazer a ligação entre essa dimensão e a nossa energia. Mas este assunto merecerá uma reflexão dedicada.

Para já, como procurei demonstrar, contar o tempo, apenas, não nos permite avaliar a sua qualidade. Muito há que mudar para que o tempo de trabalho seja visto e vivido de outra forma. Começando por repensar como o trabalho é contratado onde, de maneira muito básica, cedemos a ocupação de parte do nosso tempo em troco de dinheiro; podemos ir até um conjunto de mudanças de perspectiva que, antes de mais, cada um de nós deverá e poderá fazer na forma como vive e ocupa o seu tempo.

Estamos numa re-individualização total, ou seja, o indivíduo tem que se comportar como uma máquina sem falhas para alimentar a mega-máquina. Hoje conseguiu-se até fazer com que as pessoas fiquem doentes e se sintam profundamente culpadas por isso, porque não estão a trabalhar. O ócio só não é penalizado se implicar a compra de alguma coisa. Todo o ócio não mercantil, como a leitura, é altamente penalizado.

– Vasco Santos in Observador.

Que tal começar por ler um livro que seja, à partida, rotundamente inútil para o seu trabalho e repartir o tempo de leitura pelo horário de expediente?

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