# way-beyond-work: este foi o título do e-mail que enviei à equipa no último dia em que “estive com eles” (contratualmente falando e também nos canais e plataformas de trabalho que nos ajudaram tanto nos último meses). A partir daquele dia, a minha presença na vida de cada um deles e deles na minha, manter-se-ia oficialmente além do trabalho, sobretudo.

Era isso que estava já planeado há muito e que, no momento em que esta mudança foi falada, já não foi surpresa para ninguém. Todos sabiam que a minha mudança estava para breve desde o fim do ano de 2018. O meu tempo para tornar clara a minha decisão (para mim mesma) foi menos breve, demorou um ano. Foi das decisões mais difíceis que tomei até hoje. 

Afinal, quem opta por deixar um lugar que sabe a casa, a porto seguro? 

Uma equipa que é família? – Onde se conversa, se discute, se abraça, se ri, se trabalha, se cuida, se chora, se é proximo para apoiar e celebrar os momentos da vida de cada um (sem as famosas fronteiras entre o que é pessoal e profissional) e da empresa, na mesma medida que se respeita a vida de cada pessoa e as fronteiras que cada um coloca.

Um projecto em que se acredita? – Onde cada um tem a liberdade para construir, acrescentar, fazer diferente, criar, questionar, errar, experimentar. Onde se permite o espaço e o tempo para que cada cliente, parceiro ou membro da equipa se possa descobrir, transformar, na medida em que for capaz e que quiser.

Quem escolhe sair tendo em conta ainda o facto de estar numa situação “segura”, “confortável” (seja lá o que isso signifique na vida de cada um de vós)?

Muitos diriam “que loucura!”, “que inconsequente!” ou algo semelhante. A reacção desta equipa foi bastante diferente (claro!): “finalmente!” disseram uns, “que bom, fico tão feliz por ti!” disseram outros, e acrescentavam “tenho pena que vás mas sei que serás mais feliz!”, “gostava que ficasses” ou “vai-me custar tanto não te ter aqui todos os dias”. E não, não era para fazer figura, era sentido. Sabiam que precisava desse espaço, para outras coisas minhas que não cabiam no âmbito do projecto Way Beyond, e também porque escolheram sempre não me cortar “essas asas” (nem a mim nem a ninguém).

Nos 3 anos e picos em que pertenci orgulhosamente a esta equipa (e que pareceram muitos mais – confirmem no artigo da Joana que a noção de tempo por ali se vive, se sente, de forma diferente), fui explorando várias outras áreas. Guiada pela minha curiosidade, fui abrindo asas para outros voos e partilhei sempre com a equipa as descobertas, conquistas, aprendizagens (e algumas fui integrando no âmbito do projecto WB). Todos na equipa são diferentes mas iguais nessa necessidade de explorar, estudar e aprofundar os seus diferentes interesses. E isso estimula cada um, sem que seja necessário “espicaçar” ou incentivar ninguém a fazê-lo porque basta dar espaço, tempo, escuta, de corpo e mente presente.

Por isso não foi surpresa, não tentaram “reter-me” ou negociar a minha decisão como tantas empresas procurariam (para manter a taxa no seu mínimo) esquecendo-se que reter é diferente da escolha deliberada de ficar (para mim, o verdadeiro indicador de motivação).

Não era, no final de 2019, planeado que integrasse a equipa de parceiros (tendo em conta os meus “voos”). Planeámos (e escrevo na terceira pessoa do plural porque foram planos feitos em conjunto, tendo em conta o que cada uma das partes precisava e o que fazia sentido) a minha saída e como seriam os tempos até lá: datas, projectos, prioridades, necessidades de parte a parte, etc. 

E depois um vírus correu o mundo e alterou os planos. Alterou ou meus planos de voo. Alterou os planos da equipa, dos clientes, dos parceiros. E com isso alteraram as prioridades, datas e necessidades de todos. Conversámos. Eu e os meus botões. Eles e os botões deles. Depois conversámos todos, honestamente, sem meias-palavras ou mensagens nas entrelinhas. Os meus voos já não me levariam para longe (geograficamente) mas continuavam a pedir espaço e tempo. Gostaríamos também todos de continuar a dedicar algum tempo para #work, aproveitando o melhor de cada parte, do momento que atravessamos e dessa flexibilidade que nos foi “pedida”. Simples? Sim, foi. Não seria noutras empresas (não suponho, afirmo) mas nesta foi. Sabia que seria. Não sabia o quão mais simples seria quando imaginei, visualizei, a primeira conversa sobre o tema e todo o processo até à concretização, na minha cabeça.

Hoje sou Parceira e Amiga da Way Beyond (na minha assinatura no atual e-mail). Não pedi para ser, nem me pediram que fosse. Validámos se era assim que queríamos ser. Até quando ambos quisermos que seja ou sempre que ambos o desejarmos. Receei a mudança. Disse para mim que não era uma saída, era uma mudança de formato, como se uma coisa não fosse a outra, como se a saída (de um formato) não fosse em si mesmo uma mudança. As palavras têm força, criam a nossa realidade, aprendi ali. E aprendi também a aceitar esse poder transformador e criador de novas realidades. Foi uma saída, o fim de uma forma de colaborar. Foi também o início de uma outra forma de estar, de trabalhar, de vivermos este novo período. Não sabemos que outras mudanças (fins e inícios) estarão por vir, mesmo aqueles que planeamos (já vimos que controlamos pouco nesta vida) mas se soubermos continuar a conversar sobre como cada um quer ser e estar em cada momento, a dança far-se-á sem pisadelas ou atropelos.

E siga a dança! Agradeço por vos ter como par.


Escrito por Inês Serôdio, Parceira e Amiga da Way Beyond.

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