Sobre a integridade na era da autenticidade

 

E stou espantado com a quantidade de pessoas à minha volta que andam “numa busca pela sua verdade” ou que, já a tendo encontrado, a utilizam como argumento que se equipara aos usados numa birra infantil: “(…) pois, mas é a minha verdade”, como quem diz “temos pena” ou “é sim porque sim” ou “não porque não”. A julgar pelo número de referências a este fenómeno que oiço quase diariamente, fica a parecer-me que a salvação da nossa espécie conseguir-se-á quando nos conseguirmos encontrar, verdadeiramente. Ter-nos-emos salvo quando formos capazes de ser autênticos1.

Alinhando com a moda e procurando ser verdadeiro, o que sinto em relação a isto é mais irritação do que espanto. A irritação é semelhante à que senti em relação a outras modas anteriores. Lembra-se de quando tínhamos sempre ou o mais possível de “pensar fora da caixa”? Depois, e muitas vezes em conjugação com a anterior, era fundamental que “saíssemos da nossa zona de conforto”. Agora, a verdade, a autenticidade aparecem como a cura para os males da humanidade.

Vejo pelo menos dois obstáculos importantes à hipótese da autenticidade como solução. O primeiro na ideia de que a busca pela autenticidade parece ser um exercício individual e individualista, como escrevi na primeira parte deste texto2. Não creio que tenhamos, enquanto espécie, a maturidade suficiente a ponto de possibilitar que o todo seja salvo pela soma das suas partes. Aquilo que se observa na maioria das partes é, cada vez mais, o “salve-se quem puder” e o “primeiro eu, antes de qualquer outro”. Desta forma será difícil encontrar uma solução que abranja e que contemple mais do que uma pessoa. O segundo obstáculo, que reforçará o primeiro, é a verdade ser relativa. Para lá desta obviedade – ainda será esta uma ideia óbvia? – e da relatividade, a verdade é cada vez mais colocada em causa. É cada vez mais fácil de tomar a mentira como o seu contrário e cada vez mais difícil de se confiar no que se sabe ser verdadeiro. A culpa estará, em grande medida, na profusão das tretas, como já escrevi antes3. Ao juntar esta relatividade extrema e infundada com uma individualidade individualista, a busca pela verdade torna-se na procura de uma auto-justificação constante, irritante e insignificante.

Recorro de novo à conversação como exemplo ou como ponto de partida para uma reflexão. Considere-se a seguinte hipótese: as competências que, por exemplo, uma psicoterapeuta4 deve desenvolver e que farão com que seja reconhecida e boa no desempenho da sua actividade, são muito próximas das que um burlão tem de apurar para ser bem sucedido. Ora vejamos, nas duas actividades utiliza-se a conversa para alcançar os resultados pretendidos. E ser um artesão da conversação implica: activar a atenção e a concentração, demonstrar capacidade de escuta, empatizar e compreender, revelar interesse e cativar o interesse do outro; envolve também ser-se capaz de improvisar e de se adaptar ao outro e ao seu contexto. Todas estas dimensões servirão os diferentes propósitos com a mesma conveniência; mesmo que sejam tão díspares quanto ajudar e apoiar ou enganar e convencer. É também curioso que todas estas competências e capacidades deverão ser usadas com a autenticidade e a verdade como pano de fundo. Só dessa forma poderão ser reconhecidas e, sobretudo, “bem acolhidas” pelos interlocutores.

Onde residirá, então, a diferença? Acredito que a encontraremos na “perigosa” dimensão moral. Perigosa porque, tal como acontece com a verdade e com a autenticidade, cada um tem a sua. É perigosa também porque se corre o risco de se entrar nos clichés, por muito verdadeiros que sejam, da falta de valores ou do fenómeno que se verifica nas formações sobre ética5. A diferença entre uma (boa) psicoterapeuta e um (“bom”) burlão está, fundamentalmente, na intenção e na integridade de uma e de outro. Enquanto o interesse da primeira deverá ser a promoção do bem-estar do outro, a intenção do segundo é o ganho pessoal à custa de outrem.

A autenticidade associa-se ao binómio “verdade-mentira”. A integridade vai para além de um binómio. No seu sentido literal, integridade tem que ver com o que está inteiro, são, onde não há a falta de nenhuma das suas partes constituintes. No seu sentido figurado, ser íntegro liga-se à rectidão e a honradez. Como seria o mundo hoje se nos ocupássemos mais em desenvolver a honra e se fôssemos mais (cor)rectos uns com os outros? Talvez andemos tão ocupados em descobrir o que é verdade e mentira porque, precisamente, a honra, a rectidão e a pureza das intenções estejam em vias de extinção.

Na conversação, ou seja, na forma como interagimos uns com os outros e com o mundo, não será a técnica nem a autenticidade que nos ajudarão a melhorar e a evoluir na nossa dimensão humana. Será algo muito mais próximo da demonstração de um interesse genuíno pelos outros que, paradoxalmente “é um interesse desinteressado”, como me disse sabiamente a minha mulher. É um interesse inclusivo, que inclui o outro, acrescento eu. Algo que um burlão nunca poderá conseguir porque não se ocupa nem com a verdade nem com a mentira; ocupa-se apenas a conseguir o que quer, através da “sua” verdade.


Escrito para a Link to Leaders a 12 de Fevereiro de 2020; publicado a 19 de Fevereiro de 2020‌


  1. Chamar os bois pelos nomes – Parte 2: De banalidades a barbaridades ↩︎
  2. A conversação como espaço de virtude e de perversão – Parte I: O lugar da alteridade na era do individualismo ↩︎
  3. Chamar os “bois pelos nomes”: o caso do jargão empresarial ↩︎
  4. Usamos a psicoterapia como exemplo mas poderiam ser referidas quaisquer actividades que impliquem o estabelecimento de uma relação profissional de ajuda que se medeie através da conversação. ↩︎
  5. Se não conhece o fenómeno é simples de explicar. Nas formações sobre ética que já frequentei todas as pessoas que nelas participam são extremamente éticas e conseguem resolver os dilemas apresentados com distinção. O real desafio está na prática e não na teoria. ↩︎

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